Há vidas que se confundem com os lugares por onde passam. Há pessoas que, mais do que cumprir funções, deixam marcas. Dona Maria da Soledade da Silva Chaves é uma dessas presenças raras. Foram 32 anos de serviço público, sendo 30 deles dedicados à mesma escola, a São Francisco, no Núcleo Cidade Nova. Onde atuou como merendeira, fazendo parte da história do lugar, que se mistura à sua própria trajetória de vida.
No dia 16 de junho de 1996, ela atravessou os portões da escola pela primeira vez. Era festa de São João, tempo de quadrilha, fogueira e música, mas para ela o momento tinha um sabor ainda mais especial. Era o início de uma caminhada que mudaria não apenas sua vida, mas a de milhares de alunos que cruzariam seu caminho.
“Eu fui muito bem recebida. Me senti abraçada”, recorda. Aquele dia, tão simples, ficou gravado como o primeiro capítulo de uma história de amor ao ofício.
Além da cozinha
Quem imagina que o trabalho de uma merendeira resume-se a cozinhar, talvez nunca tenha passado pela Escola São Francisco. Para Dona Maria, cada prato servido era também um gesto de cuidado. Entre panelas, temperos e aromas, ela preparava mais que comida: preparava acolhimento. A cada sorriso, um aluno se sentia visto. A cada prato de arroz e feijão, era entregue também carinho e acolhimento.
A diretora Iselene Labres, que conviveu de perto com essa entrega, resume.
“Trabalhar com a Soledade foi muito prazeroso. Ela vai muito além da função de merendeira. Se vê um aluno triste, ela percebe, senta para conversar, descobre o que está acontecendo. É uma profissional humana, acolhedora, que põe amor em tudo o que faz”.
Batalha pela vida
Mas nem sempre os dias foram fáceis. Em 2018, Maria recebeu a notícia que estava com câncer de mama. A vida, que sempre havia sido rotina de escola, onde ia de bicicleta, de repente virou consultórios, exames e tratamentos.
“Foi um choque. Eu não sabia que estava doente. Mas quando descobri, enfrentei. Me afastei por cinco anos. E nesse tempo fui muito acolhida pela família São Francisco, abraçada por todos. Isso me fortaleceu para lutar e vencer”, relembra.
E venceu. Ela se recusou a se aposentar pela doença e disse a mesma que voltaria para encerrar seu trabalho e se aposentar por tempo de serviço. Retornou à escola não apenas como trabalhadora, mas como símbolo de resiliência. Sua volta foi também um recado de que é possível superar e recomeçar.
Aposentadoria e legado
Hoje, aos 63 anos, Maria despede-se do serviço público com o coração cheio de alegrias. Mãe de dois filhos, avó, moradora de Marabá há mais de três décadas, ela olha para trás e enxerga muito mais que números de tempo de trabalho. Enxerga gerações de crianças que cresceram, formaram- se, e ainda a cumprimentam nas ruas. “Isso é gratificante demais. Muitos eu considero como filhos. O que mais sinto falta é do companheirismo de todos”, confessa.
Sua mensagem para quem continua na jornada é simples, mas poderosa.
“Se dediquem mais, sejam compromissados. Façam como na sua casa. Sejam zelosos e mostrem quem vocês são. A escola era como a minha casa. A palavra que resume minha vida é gratidão”.
A história de Dona Maria não está apenas nos livros de registros funcionais da prefeitura. Ela mora nos corredores da escola, nas lembranças de professores e alunos, na memória da diretora Iselene e de tantos que trabalharam ao seu lado.
“Ela é uma batalhadora, humilde. Desejo a ela toda felicidade do mundo nessa nova etapa da vida”, conclui a amiga Elisene.
Texto: Osvaldo Henriques
Fotos: Bruno Eduardo Silva
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