Em 2026, o Hospital Getúlio Vargas completa 85 anos. Para celebrar a data, o hospital está realizando o projeto Mulheres Empoderadas, que compartilha a trajetória das figuras femininas que fizeram história ao longo das mais de oito décadas de atividades da instituição. A enfermeira Clara Francisca Leal entrou para a história do HGV ao se tornar a segunda mulher a ocupar a direção-geral da instituição, além de ser a primeira profissional não médica e a primeira gestora que não integrava o corpo docente da Universidade Federal do Piauí (UFPI) a assumir o cargo. Sua gestão teve duração de quatro anos e ocorreu em um período decisivo para a reorganização e redefinição do papel do hospital na rede pública de saúde do Piauí.
“Destaco esse momento como um marco, não pelo protagonismo da gestão, mas pelo pioneirismo de algumas mudanças na escolha do perfil do gestor do hospital”, afirma Clara Leal, relatando que, ao assumir a direção em 2013, o HGV vivia um contexto desafiador. Desde 2008, o hospital havia desativado o serviço de urgência, o que provocou incertezas quanto à sua função no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo a gestora, era necessário reposicionar o hospital como referência em média e alta complexidade, considerando sua relevância como o maior hospital público do estado.
“Nossa gestão concentrou esforços em definir claramente o papel do HGV e em reorganizar todos os processos de trabalho, profundamente impactados pela saída da urgência”, explica.
Clara destaca que a reorganização só foi possível graças ao envolvimento das equipes multiprofissionais. “O maior patrimônio do HGV são seus funcionários. São profissionais altamente qualificados e comprometidos com o serviço público. Houve um crescimento institucional evidente, construído de forma coletiva”, ressalta. A gestão também buscou alinhar esse novo papel do hospital junto aos órgãos de controle externo, fortalecendo sua atuação dentro da rede SUS.
Trajetória profissional
Formada em Enfermagem pela UFPI em 1982, Clara Leal ingressou no HGV em 1983, após aprovação em teste seletivo, passando a atuar em plantões noturnos no serviço de urgência, que à época era o maior serviço público do estado. O hospital havia passado por uma grande reforma estrutural em 1982 e concentrava atendimentos de alta demanda.
Com a desativação da urgência em 2008 e a transferência dos serviços para o Hospital de Urgência de Teresina (HUT), Clara passou a atuar naquela unidade como enfermeira assistente, dentro de um processo de cooperação técnica entre o Governo do Estado e a Prefeitura de Teresina.
Em 2010, encerrou suas atividades na urgência e, já como servidora municipal concursada, foi convidada a assumir funções gerenciais. “A partir desse momento, dediquei-me à gestão, sem deixar totalmente a assistência, especialmente no período noturno. Tive a oportunidade de atuar em duas áreas com as quais me identifico profundamente: a urgência e a gestão”, afirma.
Influências familiares e empoderamento
Segunda filha de cinco irmãos, Clara Leal destaca a influência familiar em sua formação. “Meus pais eram apenas alfabetizados, mas apesar disso, conseguiu com um sacrifício fazer com que todos os filhos fizessem faculdade. Isso para nós é uma confirmação clara da valorização da educação que eles, mesmo com pouca instrução, tinham naquela época”, conta emocionada.
Estudante de escola pública, Clara ressalta que sua escolha pelo serviço público foi consciente. “Sempre estudei em escola pública e, por opção própria, tornei-me servidora pública. Acredito profundamente na importância do SUS e do serviço público para a população”, relata.
Para Clara, o empoderamento feminino é um processo de fortalecimento da autonomia e da capacidade de decisão das mulheres. “Não se trata de exercer poder sobre outros, mas de fazer escolhas conscientes sobre a própria vida, corpo, carreira, trabalho e lazer. É uma luta coletiva por equidade de direitos, valorização de gênero e maior participação feminina em todos os espaços da sociedade”, destaca.
Ela reconhece que, apesar dos avanços, desafios como a desigualdade salarial e a sub-representação feminina na política ainda persistem. “O empoderamento feminino representa a busca contínua por autonomia, liberdade de escolha e participação plena das mulheres na vida social”, conclui.