Uma iniciativa desenvolvida no município de Cambé, na região Norte do Paraná, já impactou diretamente 1.288 alunos da rede municipal de ensino e vem avançando na alfabetização. A ação foi conduzida pela Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Cambé, com apoio da Secretaria de Estado da Inovação e Inteligência Artificial do Paraná (SEIA), em parceria com pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e da Universidade Federal do ABC (UFABC) com colaboração do Collège de France e apoio da ExcelloLab.
O Kalulu é um conjunto de ferramentas educativas que auxiliam crianças no processo de alfabetização. Além do professor, a criança é guiada em sua aprendizagem por um personagem, o Kalulu, uma esperta lebre do folclore africano, que ajuda os alunos do primeiro ano do ensino fundamental a aprenderem sons, letras, sílabas e palavras de forma divertida e eficaz. A ideia central é combinar elementos culturais com o que há de mais avançado na neurociência para estimular o interesse das crianças pela leitura e escrita.
Para o secretário da Inovação e Inteligência Artificial, Alex Canziani, a iniciativa reforça o compromisso do Governo do Paraná em utilizar ciência e inovação para melhorar a educação pública, desde o infantil ao ensino médio. “O Kalulu mostra como a união entre ciência, inovação e educação pode gerar resultados concretos na aprendizagem das crianças. Investir em metodologias baseadas em evidências é garantir que nossas políticas públicas tenham impacto real na vida dos estudantes e no futuro do Paraná. Agora, nossa ideia é ampliar o método para todo o estado”, afirma.
O método se baseia em uma abordagem 100% fônica, reconhecida por pesquisas em ciências educacionais e cognitivas como a mais eficaz para o aprendizado da leitura. O Kalulu inclui um guia pedagógico detalhado, um programa de aprendizado baseado em fonética explícita, um aplicativo de tablet dedicado à prática interativa e jogos de cartas para reforçar as habilidades de leitura por meio de atividades divertidas.
O projeto chegou ao Brasil por meio das pesquisas da professora doutora Katerina Lukasova, do curso de Neurociências da UFABC. Em 2019, um projeto piloto foi realizado com 19 crianças para avaliar a adaptabilidade das ferramentas. Em 2022, o projeto já incluía 175 alunos de cinco escolas municipais de Santo André, em São Paulo. Em 2025, em Cambé, foi realizado um Estudo Controlado Randomizado com rígidos critérios científicos, após a Secretaria da Inovação e Inteligência Artificial iniciar o projeto-piloto no município.
Atualmente, o método foi implementado em 17 escolas de Cambé, com a participação de aproximadamente 1.140 alunos do 1º ano e 200 do 2º ano do ensino fundamental. Os resultados esperados incluem benefícios não apenas para as habilidades de leitura, mas também para a memória e a linguagem, aspectos cruciais na alfabetização infantil. A cada aula da rotina Kalulu, são introduzidas novas combinações grafema-fonema, praticadas de forma progressiva em sílabas, palavras, frases e textos. A escrita acompanha a mesma progressão sistemática.
O município, em parceria com os pesquisadores responsáveis pela iniciativa, organiza a formação continuada dos professores que atuam na rede de ensino. Além da capacitação docente, os materiais pedagógicos utilizados no programa são disponibilizados em acesso aberto, permitindo que educadores e interessados possam consultá-los gratuitamente pela internet, ampliando o alcance do conhecimento e favorecendo o compartilhamento de práticas educacionais baseadas em evidências.
O estudo em Cambé é o primeiro no Brasil a avaliar, em todas as escolas públicas de um município, um programa de leitura com esse nível de rigor científico. As crianças foram avaliadas no início e ao final do ano letivo em habilidades como conhecimento das relações entre letras e sons, fluência de leitura (palavras e pseudopalavras por minuto) e leitura e compreensão de textos.
O progresso também foi monitorado a cada sete semanas pela equipe liderada pela professora e doutora da UEL Carla Cristiane da Silva, permitindo o acompanhamento contínuo do desenvolvimento das habilidades.
Os dados indicam que o programa ampliou significativamente o número de crianças que ultrapassaram o limiar da alfabetização, favorecendo não apenas os alunos com melhor desempenho inicial, mas também aqueles que apresentavam maiores dificuldades.
Segundo a secretária Municipal de Educação e Cultura de Cambé, Estela Camata, o município de Cambé tem investido fortemente na formação continuada dos professores e profissionais da educação.
“Esses investimentos podem ser constatados nos resultados que têm sido significativos, os quais podem ser evidenciados pelas avaliações institucionais. Em 2024 fomos Selo Ouro nos indicadores do Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, no 2º ano do Ensino Fundamental I. Acreditamos que o investimento contínuo em formação é a chave para transformar a educação municipal. Iniciativas como o Kalulu, que integram prática pedagógica e inovação, são fundamentais para elevarmos nossos índices”, afirma.
A metodologia utilizada visa, além de ensinar, compreender melhor o funcionamento cerebral infantil durante o processo de alfabetização, por meio dos projetos de pesquisa complementares. As crianças, ao participarem do jogo, são incentivadas a resolver desafios, sendo motivadas a pensar de forma diferente quando cometem erros e celebrar quando acertam.
PRÓXIMOS PASSOS – Para 2026, estão previstas adequações no material impresso, como a substituição da letra de imprensa minúscula pela cursiva nas lições. O planejamento também inclui a utilização do método em formato digital, com o uso do aplicativo Kalulu em tablets, iniciativa em que conta com o apoio da SEIA. O objetivo do projeto inclui a incorporação do aplicativo à rotina pedagógica.
DESAFIOS– O desafio agora é ampliar a iniciativa para mais municípios paranaenses e, futuramente, para que todas as escolas brasileiras tenham acesso a metodologia, garantindo a todas as crianças o direito de aprender a ler no tempo adequado e com qualidade.