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Geração Z, redes sociais e crise do diálogo são tema de entrevista na TV Assembleia
Sociólogo Guilherme Carvalho analisa os impactos do ambiente digital no comportamento dos jovens.
03/09/2026 20h24
Por: Redação Fonte: Assembleia Legislativa do Paraná

A influência das redes sociais sobre o comportamento da chamada geração Z, a polarização política e os desafios para a democracia foram alguns dos temas abordados pelo sociólogo e professor do Centro Universitário Internacional Uninter, Guilherme Carvalho, em entrevista ao programa Assembleia Entrevista, da TV Assembleia.

Autor do livroMídia, Opinião Pública e Sociedade, Carvalho explicou que a geração Z é uma classificação etária que reúne, aproximadamente, pessoas nascidas entre 1997 e 2012. Segundo ele, uma das principais características desse grupo é ter crescido em um ambiente já digitalizado, com acesso à internet, a celulares e a redes sociais. "Uma das diferenças entre a geração Z e as anteriores está na forma de estabelecer relações sociais. Enquanto gerações mais antigas tiveram experiências predominantemente presenciais antes da popularização da internet, os chamados nativos digitais já nascem nesse ambiente digitalizado, com acesso à internet, a celulares e a essa experiência de rede social", comentou.

Para ele, o ambiente digital amplia a possibilidade de contatos e permite que as pessoas encontrem e mantenham relações com um número muito maior de indivíduos. Por outro lado, essas relações podem apresentar menor profundidade. Outro aspecto destacado por ele foi a grande quantidade de informações e conteúdos disponíveis atualmente. "Estamos criando um público muito mal-acostumado, muito impaciente e muito disposto a consumir só aquilo que lhe agrada", afirmou.

Algoritmos das redes sociais

Carvalho também falou sobre o funcionamento dos algoritmos das redes sociais. Quanto mais o usuário curte, assiste ou permanece em determinado conteúdo, maior a tendência de receber materiais semelhantes. O problema, segundo o professor, é que isso reduz o contato com opiniões divergentes e pode fazer com que a pessoa passe a considerar a realidade apresentada em sua rede como a única existente. "É uma geração que não vivenciou essa outra experiência do diálogo, do debate, da conversa presencial, em que muitas vezes era preciso se posicionar e também ouvir o outro. Essa geração, acostumada ao conteúdo e à mediação das redes sociais, não tem acesso a essa outra forma de convívio, que implica conflitos, debate de ideias e confrontação de versões. E isso empobrece, no final das contas, o debate político, porque as pessoas deixam de ter acesso a esse outro olhar, a essa outra percepção da realidade", explicou.

O professor lembrou que, em períodos anteriores, o número reduzido de canais de comunicação e de opções de entretenimento fazia com que determinados conteúdos fossem consumidos por grande parte da população. De acordo com ele, a fragmentação provocada pelo ambiente digital fez com que se perdesse um pouco a capacidade de dialogar, e esse cenário contribui para o crescimento de discursos radicais, discursos de ódio e de diferentes formas de violência. "O extremismo pode aparecer em diferentes posições políticas, e a dificuldade de diálogo impede a construção de consensos", disse.

Respostas rápidas

Outro ponto abordado pelo professor foi a busca por respostas rápidas nas redes sociais. Segundo ele, a insegurança provocada pelas transformações econômicas, sociais e tecnológicas também ajuda a explicar esse comportamento. Nesse ambiente, de acordo com Carvalho, as pessoas tendem a procurar respostas que ofereçam alguma sensação de estabilidade. Mas ele alerta que "não se resolvem questões complexas com respostas fáceis".

Carvalho também relacionou esse comportamento à comunicação política. Segundo ele, os políticos passaram a utilizar discursos performáticos e conteúdos curtos para produzir materiais com potencial de circulação nas redes sociais. "Esse modelo pode contribuir para a despolitização do debate, ao privilegiar respostas rápidas e conteúdos de forte apelo emocional em detrimento de discussões mais aprofundadas", disse. Ele também falou da importância do jornalismo profissional nesse cenário. "A imprensa possui filtros éticos e técnicos que ajudam a conferir maior qualidade à produção e à divulgação das informações, enquanto esses mesmos compromissos não estão necessariamente presentes nos conteúdos produzidos por influenciadores".

Desafios

Como forma de estimular os jovens a desenvolver uma relação mais crítica com as informações, o professor defendeu uma atuação conjunta da família, da escola e das instituições. Mas ressaltou que os desafios não são exclusivamente tecnológicos. Para ele, as condições econômicas e sociais também influenciam o comportamento das pessoas, especialmente diante de relações de trabalho mais instáveis, das dificuldades de acesso à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer, e das transformações provocadas pelas novas tecnologias.

A entrevista também abordou os impactos da inteligência artificial, e ele comentou sobre a importância da geração Z no cenário político, já que os jovens estão cada vez mais próximos de ocupar espaços de decisão, seja na política, seja no setor produtivo. Ele destacou ainda o papel das instituições para a consolidação democrática. Para ele, universidades, ciência, imprensa, órgãos públicos, assembleias legislativas, governos estaduais e municipais e demais instituições são fundamentais para a construção da sociedade. "O caminho passa pela reconstrução da capacidade de diálogo e pela valorização de regras, normas, valores e consensos necessários à vida em sociedade", disse.

Assembleia Entrevista

O programa "Assembleia Entrevista", da TV Assembleia, pode ser assistido pelo canal 10.2 (TV Aberta, em Curitiba e Região Metropolitana) e pelo canal 16 (Claro/NET). O programa é transmitido às quintas-feiras, às 13 horas, com reprise às 18 horas.

Confira o programa na íntegra clicando aqui .