

Enquanto consumidores se esfalfam para obter a versão mais recente do brinquedo tecnológico, distraídos da fome e da miséria que vicejam silenciosas na habitação dos parentes pobres de toda a humanidade, enquanto brutos digladiam esmagando civis por um pedaço de terra e antes por seu próprio orgulho, com direito a indecorosa torcida, enquanto cidadãos comuns atiram lixo físico e moral pelas vias públicas e se aprazem em obter vantagens particulares que lesam a coletividade, *mas curiosamente não veem a própria imagem refletida nas dinâmicas sociais perversas*, lá, no coração da floresta, a vida resiste, respirando com a porção que ainda lhe resta de seus pulmões.
Parte dessa vida são seres humanos. Gente que, como cada um de nós, “civilizados”, tem anseio de viver e de obter satisfação da existência, o que inclui propiciar a segurança e o bem-estar de seus familiares e descendentes.
Foi certamente em busca de benefícios dessa espécie que Maria Isabel Saboia Kaxinawá, do Povo Huni Kuin, partiu, em pleno inverno amazônico, por meados de março, de sua Aldeia Espelho da Vida, na Terra Indígena Humaitá, localizada no município acreano de Feijó, e a bordo de uma canoa desceu o Muru por cinco (cinco!) dias, até chegar à casa da avó, em Tarauacá.
Ao fim da gestação, o momento das contrações coincidiu – ou talvez estivesse sincronizado, que a natureza tem lá os seus relógios bem acertados – com a subida das águas na enchente do rio, o que a impediu de se dirigir à maternidade.
Para providenciar o deslocamento, a família buscou auxílio. E embora atendendo com prontidão a ocorrência, os bombeiros, essa sublime categoria de pessoas que, na contramão da frequentemente lastimável rota humana, devota-se a salvar o outro, ainda que com o preço da própria vida, verificaram que já não se tratava de um procedimento de transporte, mas, sem demora, da realização de um parto.
De posse da experiência de auxiliar nove nascimentos em circunstâncias emergenciais, a maioria em regiões ribeirinhas, o sargento Francisco Rocha Cruz mais uma vez ativou uma de suas diversas coragens e trouxe à luz Emanuel Kaxinawá. Que nasceu entregando a alegria do dever cumprido com êxito aos socorristas.
À sua jovem mãe, o parto bem-sucedido concedeu enfim o alívio de desafios e aflições muitas. Humilde e nobre como uma madona renascentista, Maria Isabel gratificou-se pela ventura de ter sido atendida por uma equipe de “pessoas tão boas de coração”, como singelamente descreveu, fazendo constatar que, lá e aqui, há sim quem se importe com o que de fato importa: promover vida e dignidade. Simples, verdadeira, essencial, agradeceu: “Nasci de novo, eu e meu filho estamos vivos por causa deles”.
Bem-vindo, Emanuel! Que aprendamos a honrar a tua presença, a existência do teu povo e a tua morada verde e majestosa, espelho da vida real, que, afinal, protege todos nós.
Onides Bonaccorsi Queiroz é jornalista, escritora e contadora de histórias. Atua como gestora de políticas públicas do Estado do Acre

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