

O professor Antônio Cavalcante, de 35 anos, nunca imaginou que a rotina em sala de aula pudesse afetar tanto a saúde dele. Nos últimos meses, passou a sentir tonturas frequentes, falta de ar, palpitações e um formigamento nos braços e na língua, especialmente em momentos de maior pressão no trabalho.
“Às vezes, parece que vou desmaiar. Já evitei sair de casa e até entrar em lugares muito cheios com medo de passar mal”, relata. Antônio conta que os sintomas costumam surgir de forma repentina, acompanhados de uma sensação intensa de preocupação e nervosismo, mesmo sem um motivo aparente.
Após procurar atendimento médico, o diagnóstico: os sintomas eram decorrentes de um quadro de ansiedade. Com encaminhamento para o Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM), unidade da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), ele vem seguindo um tratamento especializado e buscando estratégias para lidar com o problema, como reorganizar a rotina e praticar atividades que promovam relaxamento. “Entendi que cuidar da mente é essencial para continuar fazendo o que amo”, afirma.
Histórias como a de Antônio refletem a realidade de milhões de brasileiros que convivem com a ansiedade e reforçam a importância de falar sobre saúde mental, buscar ajuda especializada e quebrar o estigma em torno do tema. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que mais de 18 milhões de brasileiros convive com a ansiedade, uma das condições mentais mais comuns no país e no mundo.
Segundo a OMS, os transtornos de ansiedade afetam cerca de 4,4% da população mundial. Entre os quadros mais comuns estão a ansiedade generalizada, o transtorno do pânico e a ansiedade social. Apesar de impactarem significativamente a vida diária e aumentarem o risco de outras doenças, esses transtornos estão entre os problemas de saúde mental mais tratáveis, especialmente quando diagnosticados precocemente e acompanhados de forma adequada.

No HSM, o atendimento psicológico é fundamental no cuidado a pacientes em crise de ansiedade, promovendo acolhimento, escuta e estratégias que contribuem para o bem-estar emocional
Segundo a psicóloga do HSM, Daniele Cajazeiras, sentir ansiedade em algum momento da vida é comum. “A ansiedade é uma reação natural do corpo humano ao estresse que nos prepara para enfrentar os desafios. Um grau de ansiedade saudável, por exemplo, nos faz estudar para uma prova ou pode nos ajudar a corresponder a uma atribuição nova no trabalho. Ela pode até mesmo levar uma pessoa a abordar situações possivelmente perigosas com a devida cautela”.
Mas, quando os sintomas se tornam frequentes e intensos, o quadro pode comprometer a saúde física e emocional. “O problema é quando a ansiedade é desproporcional à situação que estamos vivendo, persistente e prejudica a adaptação às situações de nossa vida. Dessa forma, ela se transforma em um transtorno da ansiedade e ao invés de nos ajudar a enfrentar os desafios da vida, nos atrapalha, podendo levar a um prejuízo no nosso funcionamento diário”, afirma a profissional.
O início do ano tem se consolidado como um período estratégico para ampliar o debate sobre o tema, especialmente com a campanha Janeiro Branco, que busca conscientizar a população sobre a importância do cuidado com a saúde mental e emocional. Especialistas alertam que o que acontece no cérebro, como nos quadros de ansiedade, pode interferir diretamente no funcionamento do corpo.
O psiquiatra do HSM, Samuel Pinho, explica que entre os principais sintomas físicos da ansiedade estão taquicardia, sensação de aperto no peito, falta de ar, sudorese excessiva, tremores, tensão muscular, dores de cabeça, tontura, náuseas e alterações gastrointestinais, como diarreia ou constipação. Também são frequentes o cansaço persistente, a dificuldade para relaxar e os distúrbios do sono, especialmente a insônia ou o sono não reparador.
O especialista observa que o grande desafio é que esses sintomas físicos costumam retroalimentar o quadro mental. “Quando o paciente sente o coração acelerar ou a respiração encurtar, a interpretação catastrófica desses sinais pode gerar ainda mais ansiedade, criando um ciclo de feedback que culmina em ataques de pânico ou em um estado de hipervigilância constante”, diz.

Além disso, esses sinais não surgem isoladamente. “Quando o corpo permanece em estado constante de alerta, típico dos quadros ansiosos, o cérebro interpreta situações cotidianas como ameaçadoras, ativando de forma recorrente o sistema de estresse. Com o tempo, isso pode levar a mudanças no comportamento, como evitar situações sociais, queda de produtividade, irritabilidade, dificuldade de concentração e aumento da autocrítica. Muitas pessoas passam a interpretar esses sintomas físicos como sinais de doenças graves, o que intensifica ainda mais a ansiedade e alimenta um ciclo de preocupação contínua”, alerta o médico.
A psicóloga Daniele Cajazeiras reforça que, quando a ansiedade passa a interferir na qualidade de vida, é fundamental buscar acompanhamento profissional com psiquiatras e psicólogos. Além disso, é fundamental buscar ter um sono de qualidade, praticar exercícios físicos, ter uma alimentação saudável, evitar o estresse, conviver com amigos, entre outras atividades que tragam bem-estar. Essas recomendações também podem prevenir os quadros de ansiedade.
O HSM tem um serviço de plantão psicológico com atendimento de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h. Já o serviço ambulatorial atende pacientes com quadros graves de ansiedade, por meio de encaminhamento médico. O hospital também conta com uma emergência 24 horas, para atender urgências psiquiátricas.
Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM)
Endereço: Rua Vicente Nobre de Macedo, s/n, Messejana
Plantão psicológico: segunda à sexta-feira, das 7h às 19h
Emergência: 24 horas
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