

Com a aproximação do período de entrega da Declaração do Imposto de Renda 2026, médicos, dentistas e outros profissionais da saúde precisam lidar com os efeitos práticos das mudanças recentes no Receita Saúde, sistema da Receita Federal que amplia a rastreabilidade das despesas médicas e intensifica o cruzamento de dados fiscais.
O Receita Saúde é obrigatório desde 1º de janeiro de 2025 para profissionais da saúde que atuam como pessoa física. No primeiro mês de implantação, o sistema registrou a emissão de 1.368.312 recibos, indicando rápida adesão e capacidade operacional. Em novembro de 2025, a Receita Federal incorporou a funcionalidade de emissão em lote, voltada especialmente às clínicas e consultórios com maior volume de atendimentos, reforçando o processo de digitalização do setor.
A versão 2.1 do manual, publicada pela Receita Federal no fim de 2025, alterou a lógica de comprovação das despesas médicas ao permitir que o contribuinte deduza gastos mesmo sem o recibo emitido pelo sistema — desde que haja comprovação do pagamento por meios digitais, como Pix, cartão ou transferência bancária.
Ao mesmo tempo, a mudança amplia a capacidade de fiscalização da Receita Federal e aumenta a exposição fiscal de médicos, dentistas e outros profissionais da saúde que ainda não adotaram integralmente o sistema eletrônico de emissão de recibos. Com mais dados financeiros disponíveis, o cruzamento entre pagamentos realizados e a ausência de registro formal da prestação do serviço tendem a se tornar mais frequentes e automatizados.
Mudanças na relação entre profissional e paciente
Segundo Aniele Tinoco Vieira, contadora e sócia-fundadora da Prospere Finanças — escritório especializado em profissionais da saúde —, a nova regra altera a relação entre contribuinte e profissional de saúde — e afeta a declaração do Imposto de Renda 2026.
"O paciente pode pagar a consulta via Pix diretamente para o CPF do médico ou dentista, e esse comprovante já serve como base para a dedução no Imposto de Renda. Se esse pagamento aparecer na declaração do contribuinte e não houver o recibo correspondente emitido pelo profissional, a omissão fica evidente e eleva o risco de autuações, malha fina e questionamentos fiscais", afirma.
Historicamente, inconsistências envolvendo recibos médicos estão entre as principais causas de retenção na malha fina. Dados da Receita Federal indicam que cerca de 25% das declarações com pendências envolvem despesas médicas. De acordo com Aniele, antes do Receita Saúde, o modelo baseado em recibos manuais permitia maior assimetria de informações entre quem declarava a despesa e quem declarava o recebimento.
"Quem caía inicialmente na malha fina era o paciente, que precisava comprovar o pagamento. Com o novo sistema e com os meios digitais, esse tipo de desalinhamento tende a ser identificado com muito mais rapidez", explica.
Adaptação e diligência na declaração do IR 2026
De acordo com a contadora, o principal risco fiscal para os profissionais da saúde está na omissão da emissão do recibo. "Pagamento recebido precisa ter recibo emitido, independentemente de o paciente pedir ou de ele declarar o Imposto de Renda. A obrigação é do profissional", destaca.
Para evitar problemas com o Fisco, a recomendação da contadora aos profissionais da saúde envolve a revisão de processos financeiros e administrativos, a fim de garantir o cumprimento da exigência legal e manter um nível elevado de proteção fiscal, organização financeira e conformidade tributária.
"Além de atender à exigência fiscal, a emissão correta dos recibos permite organizar o fluxo de caixa e viabiliza a dedução das despesas do próprio consultório, como aluguel, contas de consumo, equipe de apoio e serviços de marketing, desde que haja comprovação", afirma.
Nova funcionalidade para otimizar a gestão de clínicas e consultórios
Para 2026, Aniele destaca que a recente funcionalidade de emissão em lote tende a reduzir erros operacionais e aumentar a eficiência, principalmente em clínicas de maior porte, liberando a equipe de tarefas repetitivas e facilitando o dia a dia de um setor que, segundo ela, tem dificuldades operacionais para gestão.
"O setor da saúde tem profissionais muito focados na assistência, com múltiplas fontes de renda e pouco tempo para gestão. O Receita Saúde surge como um instrumento que organiza essa realidade", explica.
Na avaliação de Aniele, a tendência para 2026 e para os próximos anos é de aprofundamento da integração entre sistemas fiscais, financeiros e de gestão — o que amplia a necessidade de maior cautela no dia a dia.
"O caminho é de rastreabilidade total, cruzamento de dados em tempo real e maior responsabilidade fiscal, alinhando médicos e dentistas às práticas já consolidadas em outros setores da economia. Por isso, os profissionais devem se preparar para manter uma gestão financeira e tributária organizada e contar com o apoio de um contador de confiança, capaz de orientar esse processo de adaptação com segurança", conclui.
Sobre a Prospere Finanças
A Prospere Finanças é uma assessoria contábil fundada em 2013 pela contadora Aniele Tinoco Vieira. O escritório é especializado na prestação de serviços contábeis, fiscais e financeiros para médicos e profissionais da saúde, profissionais liberais e pequenas e médias empresas.
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