

Celebração dedicada a fé atravessa séculos, fortalece laços comunitários e reafirma o compromisso da cidade com seu patrimônio cultural e religioso
São Sebastião vive nesta segunda-feira, 20 de janeiro, o ponto alto de uma tradição que atravessa mais de quatro séculos de história e se confunde com a própria formação do município. A 420ª Festa de São Sebastião, padroeiro da cidade, reafirma uma devoção iniciada ainda no período colonial e preservada como patrimônio cultural, religioso e social do Litoral Norte paulista.
A programação do dia começou ainda na madrugada, com a realização da 8ª Caminhada da Fé, que partiu de Maresias às 4h e reuniu fiéis em um percurso marcado por oração e devoção. Ao longo do dia, as celebrações se concentram no Centro Histórico, tendo como eixo a Igreja Matriz de São Sebastião, marco arquitetônico e simbólico da cidade. Pela manhã, às 8h, foi celebrada a Missa do Descimento da Imagem, momento tradicional que antecede as solenidades da tarde e da noite.
Às 17h, a Procissão Solene percorre as ruas do Centro Histórico, conduzindo a imagem do santo mártir em um dos atos de maior comoção popular do calendário religioso local. Em seguida, às 18h, será celebrada a Missa Campal do Padroeiro, no Complexo Turístico da Rua da Praia, reunindo moradores e visitantes em um dos principais cartões-postais da cidade. A programação religiosa da noite será encerrada com apresentações musicais de louvor, incluindo a participação especial do padre Elimar de Azevedo Ferreira, ex-pároco da Igreja Matriz e figura muito querida pela comunidade, além do show com o cantor católico Flávio Vítor Jr., às 21h.
A dimensão da festa vai além do aspecto litúrgico. A programação social, realizada diariamente no Complexo Turístico da Rua da Praia até o dia 1º de fevereiro, reúne quermesse, gastronomia típica e o tradicional Show de Prêmios, que neste ano inclui motocicletas carro zero quilômetro, bicicletas elétricas, televisores, smartphones e valores em dinheiro. A movimentação reforça o impacto positivo da festividade no comércio, na hotelaria e no setor de serviços, especialmente em um dos períodos de maior fluxo turístico do município.
A devoção a São Sebastião remonta ao século III, quando o santo, oficial do exército romano e capitão da Guarda Pretoriana, utilizou sua posição para amparar cristãos perseguidos pelo imperador Diocleciano. Descoberto, foi condenado à morte por flechadas, sobreviveu ao suplício inicial e, ao retornar para confrontar o imperador, acabou martirizado no ano de 288. As flechas que marcam sua iconografia tornaram-se símbolo de proteção contra epidemias, fome e guerra, o que explica a força de sua devoção ao longo dos séculos.
Em São Sebastião, a ligação com o padroeiro antecede a própria emancipação do município. Em 20 de janeiro de 1502, a expedição de Américo Vespúcio nomeou o canal e a ilha em homenagem ao santo do dia. Décadas depois, em 1636, com a emancipação política da vila, a devoção foi institucionalizada, tornando-se parte estruturante da identidade caiçara. Para a população local, São Sebastião é também o guardião das águas, e a procissão anual representa a renovação simbólica de um pacto de proteção entre o povo, o mar e a fé.
A Igreja Matriz de São Sebastião, embora reconstruída no século XIX, guarda elementos que reforçam esse vínculo histórico. Erguida com paredes de pedra e cal assentadas com óleo de baleia, técnica comum da época para resistir à maresia, abriga uma imagem de São Sebastião em terracota, considerada uma das mais antigas do Brasil. Por questões de preservação, a peça original permanece protegida, enquanto uma réplica participa das procissões. Os sinos da Matriz, que por décadas marcaram o ritmo da cidade, seguem como símbolo sonoro de resistência e memória coletiva.
Para o prefeito Reinaldinho Moreira, a celebração traduz o encontro entre tradição e desenvolvimento. Segundo ele, “ao caminharmos pelas ruas, testemunhamos o encontro da nossa tradição secular com o desenvolvimento que estamos construindo para o futuro. São 420 anos de devoção ao Padroeiro, uma fé que une as famílias e fortalece a identidade do nosso povo. Valorizar essa história é um compromisso com a cultura caiçara e com o planejamento de uma cidade que cresce sem esquecer suas raízes”.
À frente da Paróquia de São Sebastião, o pároco padre Alessandro Henrique Coelho destaca o significado espiritual da data. Para ele, celebrar o padroeiro é reconhecer o testemunho de fidelidade levado até às últimas consequências. “Celebrar São Sebastião é reconhecer o homem que foi fiel a Jesus Cristo até o fim, capaz de renunciar a privilégios, oportunidades e à própria vida. Recorrer a ele é pedir coragem, ardor e perseverança, especialmente nas tribulações”, afirma. Neste ano, a paróquia vive ainda um momento especial com a acolhida de uma relíquia de primeiro grau do santo, reforçando o vínculo histórico e espiritual da cidade com seu padroeiro.
Mais do que um evento religioso, a Festa de São Sebastião é reconhecida como patrimônio imaterial, protegida pela Constituição, e cumpre papel estratégico na preservação da identidade cultural, na promoção do turismo e na coesão social.
#PraTodosVerem: Missa campal em homenagem a São Sebastião, realizada em 2025. Ao centro, a imagem do padroeiro, está posicionada sobre um arranjo de flores vermelhas. Ao fundo, religiosos celebram a missa em altar montado ao ar livre. Fim da descrição.
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