

Na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, unidade de alto risco da Secretaria de Estado da Saúde de Sergipe (SES), o cuidado com o bebê prematuro vai muito além da tecnologia e dos protocolos clínicos. Ele começa no acolhimento, passa pelo contato pele a pele e se fortalece no vínculo entre pais e filhos por meio do Método Canguru, uma política nacional de atenção humanizada voltada ao recém-nascido de baixo peso e à sua família. Assistência é voltada a bebês prematuros com menos de 37 semanas de gestação e que nascem com menos de 2,5 kg.
Reconhecido principalmente pelo contato pele a pele, o método busca 'recriar' fora do útero o ambiente que o prematuro ainda deveria estar vivenciando. Como esses bebês nascem antes do tempo esperado, o cuidado precisa ser ainda mais delicado, respeitando seu ritmo e favorecendo sua estabilidade.
De acordo com a coordenadora estadual do Método Canguru, Amanda da Silva Andrade Prado, os benefícios são amplos e cientificamente comprovados. “Entre as várias vantagens, o contato pele a pele promove estabilidade fisiológica, maturação neurológica, maior sucesso no aleitamento materno, proteção imunológica e fortalecimento do vínculo, reduzindo a morbimortalidade do prematuro. Mas é importante destacar que a posição canguru, que é colocar o bebê no peito dos pais, é apenas a parte mais visível do método. Ele envolve a participação ativa da família, o estímulo intenso ao aleitamento materno, o controle do ambiente para proteção neurológica e o acompanhamento após a alta”, explicou.
Amanda reforça ainda que, no modelo brasileiro, o contato pele a pele pode ser realizado pela mãe, pelo pai ou responsável legal. Não é exclusivo materno, mas também não é aberto a visitantes, pois é um cuidado centrado na família.
Etapas
O percurso do prematuro no Método Canguru não se inicia apenas na internação. Ele começa ainda na Atenção Primária à Saúde (APS), durante o pré-natal de risco, quando a gestante e sua família são orientadas sobre a possibilidade de prematuridade e sobre sua participação ativa no tratamento. Após o nascimento, o bebê segue para a 1ª etapa, na UTI Neonatal ou Unidade de Cuidados Intermediários, onde ocorre a estabilização clínica e o início da aproximação com os pais.
Na 2ª etapa, já na Unidade de Cuidados Intermediários Canguru (UCINCa), os pais permanecem continuamente com o recém-nascido, realizam a posição canguru e assumem progressivamente os cuidados sob supervisão da equipe. Com a estabilidade clínica, acontece a alta precoce e inicia-se a 3ª etapa: o acompanhamento ambulatorial até que o bebê atinja aproximadamente 2,5 kg, com suporte compartilhado entre hospital e APS.
Assim, o Método Canguru se consolida como um cuidado contínuo que integra hospital, família e rede de saúde em todas as fases do desenvolvimento prematuro.
Referência estadual
O Método Canguru foi implantado em Sergipe em 2004, inicialmente na Maternidade Hildete Falcão Batista. Atualmente, encontra-se com as três etapas plenamente implantadas na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, que dispõe de 27 leitos habilitados na Unidade de Cuidados Intermediários Canguru (UCINCa), além de cinco leitos na Maternidade Lourdes Nogueira. A MNSL é a detentora do título de maior enfermaria Canguru do Brasil com 27 leitos cadastrados no Ministério da Saúde.
Segundo a enfermeira e gerente da Ala Verde da unidade, Juliana Fonseca, outras maternidades públicas do estado já adotam pilares do método, mas ainda não possuem leitos habilitados para a UCINCa.
Histórias
A experiência da puérpera Alessandra Santos Rodrigues traduz o que os números e protocolos não conseguem expressar: o sentimento de superação e esperança. Mãe de Maite Riane Santos Arcanjo, natural de Estância, Alessandra deu à luz com 31 semanas e 2 dias de gestação. A pequena Maite nasceu de parto normal, medindo 41 centímetros e pesando 1,51 kg.
Hoje, vivendo a rotina do Método Canguru, Alessandra descreve o processo como um aprendizado diário. “Eu aprendi que, para poder criar nossos filhos, a gente precisa estar bem. Se a gente não estiver bem, não consegue cuidar deles. No Método Canguru, cada dia é uma vitória. A cada dia que passa, minha bebê ganha peso, sente meu calor, escuta meus batimentos, recebe acolhimento e proteção. É como se ela ainda estivesse na barriga, mas agora nos meus braços. A gente sente que tem mais amor envolvido”, contou.
Mãe de outros dois filhos, um de dez e outro de seis anos, Alessandra reconhece que o ritmo de um bebê prematuro é diferente, mas se sente segura com o acompanhamento. “Estou aprendendo muito com a equipe. Eles são maravilhosos, uma equipe multidisciplinar muito atenciosa. É um cuidado que acolhe não só o bebê, mas a mãe também”, ressaltou.
Na Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, cada incubadora guarda uma história, e cada colo se transforma em extensão da vida que começou antes do tempo. No silêncio das unidades neonatais, o método prova diariamente que tecnologia e afeto caminham juntos e que o toque pode ser tão essencial quanto qualquer equipe.



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