

Romper o silêncio quase nunca é simples. Para muitas mulheres que vivem situações de violência doméstica, denunciar significa enfrentar medo, culpa e a incerteza sobre o que virá depois. Essa realidade revela o desafio enfrentado pelas instituições responsáveis por garantir proteção às vítimas no Piauí. Na Universidade Estadual do Piauí (Uespi), o Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Nevim) atua como porta de entrada para mulheres que buscam apoio psicológico, orientação jurídica e encaminhamento para a rede de proteção.
“O núcleo surgiu a partir de um pedido da própria universidade para que houvesse esse espaço de proteção integrado à segurança pública. A Secretaria entrou com os profissionais e a Uespi com o espaço físico, formalizando um acordo de cooperação técnica”, explica a coordenadora do Nevim, Malena Alves.
O primeiro atendimento vai além da escuta. Ele representa o início de um processo que busca reconstruir a autonomia da mulher e romper o isolamento, um dos fatores que mais dificultam a saída de relações abusivas. A partir desse contato inicial, o núcleo articula encaminhamentos com serviços da assistência social, saúde e orientação jurídica.
Segundo Malena Alves, o perfil dos atendimentos revela diferentes formas de violência. “Cerca de 70% das mulheres acolhidas chegam por situações de violência psicológica ou assédio moral dentro do contexto universitário. Outros 20% são casos de violência doméstica fora da universidade e aproximadamente 10% envolvem assédio sexual”, detalha.

Quando o caso avança para o sistema de Justiça, entram em cena instrumentos legais que buscam interromper a violência e proteger a vítima. Entre eles estão as medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha, que podem determinar o afastamento do agressor, a proibição de contato e limites de aproximação. “Nós temos articulação direta com a rede de proteção da segurança pública e com serviços da assistência social, saúde e educação. Quando necessário, fazemos os encaminhamentos e acompanhamos a mulher até os serviços especializados”, afirma a coordenadora.
Mesmo assim, o acesso à Justiça ainda encontra barreiras. O medo de represálias, a vergonha e a falta de informação sobre os procedimentos legais fazem com que muitas mulheres hesitem em procurar ajuda. “O que mais dificulta é a culpa. A violência psicológica faz com que a mulher se sinta responsável pelo que está vivendo. O medo de julgamento pelas instituições também acaba desestimulando a denúncia”, relata Malena Alves.
A violência de gênero, no entanto, nem sempre começa com agressões físicas. Controle excessivo, ameaças, humilhações e violência patrimonial também configuram violações que comprometem a autonomia e a saúde emocional da vítima. A naturalização dessas práticas muitas vezes impede que a mulher reconheça o problema logo no início.

Para a psicóloga Vitória Antão, que atua na equipe do Nevim, o atendimento psicológico tem papel decisivo nesse processo. “O acolhimento fortalece emocionalmente a mulher. Muitas chegam fragilizadas por violências anteriores e também pelos estigmas de uma cultura patriarcal que ainda coloca a culpa na vítima. Nosso trabalho é retirar esse peso para que ela consiga reconstruir sua vida”, explica.
Segundo a psicóloga, uma das dificuldades iniciais é justamente identificar a violência. “Muitas mulheres chegam com sofrimento emocional, mas sem conseguir nomear o que viveram. Às vezes precisam ouvir que aquilo foi violência, que não se trata de brincadeira ou exagero”, afirma a profissional.
Entre os sinais mais comuns observados no atendimento estão isolamento social, ansiedade, depressão e episódios de pânico. Frequentemente, o agressor utiliza estratégias de manipulação para afastar a vítima de amigos, familiares e redes de apoio, tornando o rompimento ainda mais difícil.

A assistente social Jayane Maria Ferreira Carvalho destaca que as mulheres atendidas no núcleo apresentam diferentes níveis de vulnerabilidade. “Algumas são mães, trabalham e estudam ao mesmo tempo. Outras sofreram violência doméstica e foram impedidas de trabalhar pelo companheiro, o que aumenta a dependência financeira e dificulta a ruptura”, explica.
O atendimento social busca identificar essas necessidades e encaminhar cada caso para os serviços adequados da rede de proteção. Entre eles estão a Casa da Mulher Brasileira, os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e também os órgãos do sistema de Justiça responsáveis pela concessão de medidas protetivas e acompanhamento judicial dos casos. “A autonomia da mulher é sempre respeitada. Mesmo quando ela decide não seguir o acompanhamento, fazemos o acolhimento inicial para oferecer proteção e orientação”, afirma.

Para a assessora jurídica Samanta Vieira Volpato, compreender o tipo de violência é essencial para definir as medidas legais adequadas. “A partir do relato da mulher, identificamos se se trata de assédio, violência patrimonial, doméstica ou até descumprimento de medida protetiva. A partir disso, orientamos quais providências judiciais podem ser tomadas”, explica.
Entre as medidas possíveis estão a determinação de distância mínima entre agressor e vítima, proibição de contato e até a retirada do agressor da residência. “Quando o caso chega ao Judiciário, o Estado passa a atuar diretamente na proteção dessa mulher”, destaca.
A dimensão estrutural da violência de gênero também é apontada pelo professor e pesquisador João Pedro Pacheco Chaves, da Universidade Estadual do Piauí.

Para ele, o problema está profundamente ligado a desigualdades históricas. “A violência contra a mulher tem raízes em um sistema patriarcal que historicamente colocou homens em posição de dominação e mulheres em posição de subordinação. A violência acaba sendo um reflexo dessa estrutura social”, afirma.
Segundo o pesquisador, a violência costuma seguir um ciclo que começa com agressões psicológicas e evolui para formas mais graves, intercaladas por pedidos de desculpas e promessas de mudança. “Muitas mulheres permanecem na relação porque acreditam que o agressor vai mudar ou porque enfrentam pressão familiar, dependência econômica ou medo de revitimização durante o processo de denúncia”, explica.

Mesmo assim, quando a rede de proteção funciona, a possibilidade de ruptura aumenta. Esse foi o caso de “Roberta” (nome fictício), estudante da Uespi que viveu uma relação marcada por controle e ameaças. A violência começou de forma gradual. “No começo eram discussões e ciúmes. Depois vieram os xingamentos e o controle sobre com quem eu falava. Quando percebi, eu já tinha medo de sair de casa”, relata.
Com o tempo, o impacto da violência passou a afetar sua vida acadêmica. “Eu faltava às aulas, perdia prazos de trabalhos e vivia em constante alerta”, conta.
A decisão de buscar ajuda veio após um episódio mais grave de agressão. O primeiro contato com a rede de apoio aconteceu dentro da universidade, por meio do Nevim. “Eu achei que conseguiria lidar sozinha, mas entendi que aquilo podia terminar muito pior. Cheguei sem saber o que dizer. Só sabia que precisava de ajuda. Lá me disseram que aquilo era violência e que eu não tinha culpa”, relata.

A partir desse atendimento inicial, Roberta recebeu orientação jurídica sobre os caminhos legais disponíveis e foi encaminhada para serviços da rede de proteção. Com apoio institucional, decidiu registrar a ocorrência e solicitar medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha. “Eu tinha medo de denunciar. Quando me explicaram como funcionavam as medidas protetivas e que a Justiça poderia garantir minha segurança, consegui dar o primeiro passo”, afirma.
Uespi de Picos envolve homens na campanha pelo fim da violência contra mulher
Além do acolhimento às vítimas e das respostas do sistema de Justiça, iniciativas de conscientização também buscam atuar na prevenção da violência de gênero. Na Universidade Estadual do Piauí (Uespi), no campus de Picos, uma campanha tem chamado atenção por direcionar o debate justamente para um público que raramente participa dessas discussões: os homens.

Coordenada pela professora Gertrudes Maria, do curso de Direito da Uespi, a campanha “Homens pelo Fim da Violência Contra a Mulher” surgiu dentro da disciplina de Atividade Curricular de Extensão e reúne estudantes do terceiro e quarto períodos do curso. A iniciativa foi inspirada no recente lançamento do Pacto Nacional pelo Enfrentamento ao Feminicídio, que convoca instituições públicas e a sociedade para ampliar o debate sobre o tema. “A proposta da campanha é justamente chamar os homens para esse posicionamento. A violência doméstica não começa com a agressão física, ela começa com comportamentos machistas, com falas discriminatórias e com a naturalização da submissão das mulheres”, explica a professora.
A campanha foi organizada em três etapas. A primeira prevê ações de conscientização em universidades públicas, como a própria Uespi, a Universidade Federal do Piauí e o Instituto Federal do Piauí. Em seguida, as atividades devem alcançar órgãos públicos, como Ministério Público, Defensoria Pública e tribunais. A última fase pretende levar o debate para a comunidade, com atividades em espaços públicos da cidade de Picos.
Segundo Gertrudes Maria, o objetivo é ampliar a participação masculina no enfrentamento da violência de gênero. “As mulheres já discutem constantemente esse tema entre si, muitas vezes como vítimas. Mas precisamos também de homens comprometidos com essa luta, que se posicionem contra o machismo e contra a violência”, afirma.
O estudante de Direito Valderi Igor integra a equipe que desenvolve a campanha e acredita que envolver os homens no debate é essencial para mudar comportamentos naturalizados na sociedade. “Geralmente os homens não falam sobre esse assunto e acabam aceitando certas piadas ou comportamentos que reforçam o machismo. A campanha tenta justamente provocar esse debate e mostrar que esse problema também precisa ser enfrentado por nós”, afirma.
Para ele, levar essa discussão para a universidade é uma oportunidade de formar profissionais mais conscientes sobre o papel social que ocuparão no futuro. “A academia é um espaço importante para esse debate. A partir daqui, essa conscientização pode alcançar outros ambientes da sociedade”, conclui o estudante.
No Tribunal de Justiça do Piauí, a procura por proteção tem crescido. Dados do Juizado de Violência Doméstica e Familiar mostram que, em 2025, foram registrados 3.554 novos pedidos de medidas protetivas, um aumento de 29% em relação ao ano anterior.
Nos primeiros meses de 2026, o crescimento continuou. Apenas entre janeiro e fevereiro foram contabilizados 626 novos pedidos, contra 503 no mesmo período de 2025.
Para o juiz Virgílio Martins, do Juizado de Violência Doméstica e Familiar, as medidas protetivas são instrumentos essenciais para salvar vidas. “As medidas protetivas são o coração da Lei Maria da Penha. Do ponto de vista estatístico, já se verificou que elas conseguem interromper o ciclo de violência”, afirma.

Segundo o magistrado, o Judiciário tem até 48 horas para decidir sobre o pedido. Uma vez concedida, a medida pode determinar afastamento do agressor, proibição de contato e limites de aproximação. “O descumprimento é crime e pode levar à prisão do agressor”, ressalta.
Apesar dos avanços legais, o juiz alerta que muitos casos ainda permanecem invisíveis. “A maioria dos feminicídios ocorre com mulheres que não tinham medida protetiva. Isso está ligado à desinformação, ao medo e ao próprio ciclo da violência”, explica.
Para ele, o enfrentamento ao problema exige atuação conjunta da sociedade. “O Judiciário não pode caminhar sozinho. Universidades, escolas, famílias e organizações sociais têm papel fundamental na construção de uma cultura de respeito e proteção.”
Para mulheres como Roberta, esse apoio foi decisivo. Hoje, com a identidade preservada por segurança, ela segue reconstruindo a própria vida e retomando a rotina universitária.

Rede de apoio e denúncia
Mulheres em situação de violência doméstica podem procurar ajuda por meio de serviços especializados de acolhimento, orientação e registro de denúncias.
Nevim – Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher (Uespi)
Oferece atendimento psicológico, orientação jurídica e encaminhamento para a rede de proteção.
WhatsApp: (86) 99471-9244
Ei, mermã, não se cale!
Canal de orientação e apoio para mulheres em situação de violência.
WhatsApp: 0800 000 1673
B.O Fácil
Serviço da Secretaria de Segurança Pública do Piauí para registro de ocorrências e orientações.
Telefone: 0800 086 0190
JuLIA Sentinela
Canal de denúncias e solicitação de medida protetiva por meio do WhatsApp.
WhatsApp: (86) 98128-8015
Casa da Mulher Brasileira (24 Horas)
Espaço que reúne diversos serviços de atendimento e proteção à mulher em um único local.
Endereço: Avenida Roraima, 253 – Bairro Aeroporto, Teresina – PI.
Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
Canal nacional, gratuito e disponível 24 horas para denúncias e orientações.
Polícia Militar – 190
Para situações de emergência ou risco imediato.
A denúncia pode ser feita pela própria vítima ou por qualquer pessoa que tenha conhecimento de uma situação de violência.
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