

O policial em campo digita o que a vítima acabou de descrever. Não a placa — que a vítima quase nunca viu. O carro prata, o adesivo na traseira, o amassado na porta do motorista, a mochila que o suspeito carregava. Em segundos, a plataforma criada pela startup de IA brasileira Pax devolve em quais câmeras aquele veículo passou e quando.
É essa camada que separa a nova geração de tecnologia de segurança pública da anterior: busca por características, em linguagem natural, rodando sobre a rede de câmeras que o estado já tem — sem depender apenas de leitura de placa ou de reconhecimento facial. A plataforma da Pax cruza o que encontra em câmeras com boletins de ocorrência e mandados em aberto. O policial dispara o alerta e avisa à equipe mais próxima para fazer a intervenção.
Desenvolvida para funcionar como uma assistente digital para policiais, a tecnologia acumula, ao longo do último ano, mais de 5 mil casos com auxílio da plataforma, somando todos os programas em que a empresa atua. São mais de 3,1 mil prisões e mais de 1,7 mil veículos recuperados no Brasil.
Os números chegam no ano em que a segurança pública virou bandeira de campanha de partidos de espectros diferentes — agora com um componente novo no trabalho das polícias: inteligência artificial cruzando dados para orientar operações em tempo real.
Em Goiás, o programa IA Contra o Crime é conduzido com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-GO) e, segundo a secretaria, deve sair de 9 para mais de 200 municípios até o fim de 2026. No Paraná, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (SESP-PR) informou no início de setembro que o programa Olho Vivo, presente em 20 municípios, chegou a 1,9 mil casos resolvidos desde dezembro de 2025. Há ainda pilotos da Pax em parcerias com estados e municípios do Sudeste, do Nordeste e do Norte.
A empresa nasceu em 2024 como Paladium, com a proposta de construir do zero uma tecnologia brasileira para segurança pública, e adotou a marca Pax em março deste ano, quando foi anunciada oficialmente ao mercado. Os primeiros pilotos, em Goiás e no Paraná, evoluíram para programas estaduais.
A polícia usando a IA na prática
Goiás – a joalheria. Um dia depois do furto registrado em uma joalheria em shopping de Goiânia, três suspeitos foram presos. O processamento das imagens de monitoramento, o cruzamento das bases criminais e a geração de rotas de fuga prováveis apoiaram a identificação e a localização dos suspeitos, em trabalho que integrou equipes de Goiás e do Distrito Federal. Joias, dinheiro e três celulares foram recuperados.
Paraná – a mochila. Em Maringá, a busca por características identificou a mochila que o suspeito de um furto carregava. Bastou ao policial digitar na plataforma "Suspeito com mochila azul do time de futebol PSG" para identificá-lo dirigindo uma motocicleta, com uma placa aparente. Com essas duas pistas, uma equipe em patrulhamento o localizou no dia 18 de junho, usando roupas parecidas com as que vestia no dia do furto e a mesma mochila apontada pelo sistema.
Ceará – a Expocrato. Durante a Expocrato, entre 11 e 19 de julho no Parque de Exposições Pedro Felício Cavalcante, em Crato, 24 pessoas com mandados de prisão em aberto foram presas com auxílio da plataforma, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Entre elas, um homem procurado desde 2013 por roubo à mão armada, e uma pessoa cuja aparência havia mudado significativamente em relação às fotos disponíveis. Três celulares e um veículo com registro de furto ou roubo também foram recuperados.
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