

Em Mato Grosso do Sul, 157 crianças e adolescentes, abandonados pelos pais biológicos estão em abrigos de acolhimento alimentando a esperança de serem adotados. A maioria já passou da primeira infância: Do total, 138 têm seis anos ou mais, o equivalente a 87,9%. São meninos e meninas com histórias, lembranças, medos, sonhos e, acima de tudo, o desejo de ter alguém para chamar de família.
Essa realidade é tão presente que Mato Grosso do Sul tem uma legislação específica para chamar a atenção para essas crianças. A Lei Estadual nº 5.921, de 11 de julho de 2022 , instituiu a Semana de Incentivo à Adoção Tardia, realizada anualmente na primeira semana de setembro. A legislação tem como objetivo estimular a adoção de crianças e adolescentes que estão acima da faixa etária tradicionalmente procurada pelos candidatos à adoção.
Em 2024, a Lei nº 6.323 atualizou a norma e determinou que, durante a semana, sejam ampliadas as informações sobre os procedimentos de adoção e os dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), incluindo a faixa etária das crianças e o perfil de idade declarado pelos pretendentes.Os números ajudam a mostrar por que essa conscientização é necessária. A espera ganha um significado ainda maior quando se observa o perfil de quem está disposto a adotar.
Atualmente, 242 pretendentes manifestaram interesse no Estado. Desse total, 161 são casados, 51 vivem em união estável e 25 são solteiros. Mas apenas 32, o equivalente a 13,2%, aceitam crianças com mais de seis anos. É nesse desencontro que muitas esperas se prolongam.Embora não exista uma definição legal específica para o termo, convencionou-se chamar de adoção tardia o acolhimento de crianças mais velhas, geralmente a partir dos sete anos, além de adolescentes.

Muitos pretendentes sonham em acompanhar os primeiros passos, as primeiras palavras e as diferentes fases do desenvolvimento.Também existe a ideia de que o vínculo afetivo seria mais fácil de construir quando a criança ainda é pequena. Mas, para quem já cresceu, o tempo também passa enquanto a família não chega. Histórias que chegam antes do encontro.
A juíza Katy Braun do Prado, da Vara da Infância, Adolescência e do Idoso de Campo Grande e presidente da Associação Brasileira de Magistrados da Infância e Juventude, explica que o receio diante das histórias de vida dessas crianças também influencia a escolha dos pretendentes. Negligência, violência, abandono e sucessivas rupturas familiares podem fazer parte da trajetória de algumas delas.
Essas experiências exigem dos adultos não apenas disposição para amar, mas também preparo para compreender comportamentos, medos e dificuldades que podem surgir durante a construção do vínculo. “As crianças que aguardam por uma família são predominantemente maiores de sete anos, adolescentes, grupos de irmãos e crianças que possuem alguma condição de saúde ou necessidade específica”, afirma.
Algumas permanecem nos serviços de acolhimento por muitos anos, chegando à adolescência e, em determinados casos, à maioridade, sem encontrar uma família preparada para recebê-las. “Elas precisam estar dispostos a enfrentar os desafios que essas problemáticas vão trazer e também a aceitarem por mais tempo o acompanhamento do sistema de proteção de crianças e adolescentes.
Entre os menores disponíveis para adoção, 106 não têm pretendentes interessados. Desse grupo, 53 são adolescentes. Na outra ponta, 53 crianças já despertaram o interesse de algum pretendente. Mesmo nesse grupo, porém, a idade faz diferença: 17 têm até seis anos e apenas quatro são adolescentes.
Os números ajudam a dimensionar uma realidade que, para cada criança, é muito mais do que uma estatística. Uma criança de oito anos já tem lembranças. Uma de dez tem preferências, medos, sonhos e uma maneira própria de enxergar o mundo. Aos 12, 14 ou 16 anos, já existe uma história construída e uma identidade em formação.
Isso não diminui a necessidade de uma família. Pelo contrário. Um adolescente também precisa de proteção, orientação, afeto, segurança e alguém disposto a permanecer ao seu lado quando a vida não for fácil. A adoção tardia exige que os pretendentes estejam preparados para construir o vínculo pouco a pouco. Não se trata de apagar a história anterior da criança, mas de ajudá-la a escrever novos capítulos.
História e vínculo
O processo começa na Vara da Infância e Juventude. Pessoas maiores de 18 anos, independentemente do estado civil ou da orientação sexual, podem buscar informações e iniciar os procedimentos necessários. Os pretendentes passam por preparação psicossocial e jurídica, geralmente por meio de curso específico, além de avaliação realizada por equipe interdisciplinar. Se considerados aptos, são habilitados e inseridos no Sistema Nacional de Adoção.
Para quem sente medo diante da possibilidade de adotar uma criança maior ou um adolescente, a orientação é buscar informação e participar das etapas de preparação. Conhecer essa realidade ajuda a compreender que cada criança chega com uma história própria e que o vínculo precisa ser construído com tempo, paciência e segurança.
Em Mato Grosso do Sul, 103 crianças que estão à espera de adoçao têm pelo menos um irmão. Isso significa que 65,6% possuem vínculos de irmandade que também precisam ser considerados na busca por uma nova família. Para essas crianças, muitas vezes, o irmão é uma das poucas pessoas que permaneceu ao lado delas durante períodos de mudanças, perdas e incertezas. Por isso, quando a adoção envolve irmãos, preservar esses vínculos se torna parte importante da construção de uma nova história familiar. Ouça abaixo o áudio da entrevista da juíza Kaly Braun.
Quem são os que esperam
O grupo é formado por 88 meninos e 69 meninas. Em relação à raça/cor, são 86 pardos, 34 brancos, 21 indígenas e 16 pretos. A distribuição por idade revela ainda mais claramente o desafio da adoção tardia: seis crianças têm até dois anos; quatro estão na faixa de dois a quatro anos; 20 têm entre seis e oito; outras 20, entre oito e dez; 19 estão entre dez e 12; 25, entre 12 e 14; 33, entre 14 e 16; e 23 têm mais de 16 anos. São diferentes idades, histórias e necessidades reunidas em uma mesma espera: encontrar uma família.
Quando uma família pensa em adoção, é comum imaginar um bebê ou uma criança pequena. Mas a experiência de Ana Beatriz*, de 33 anos, e Marcos*, de 30, mostra que crianças maiores também podem viver muitas primeiras vezes ao lado de quem decide permanecer. O casal adotou duas irmãs, então com 11 e 12 anos, de Paranaíba. Hoje, as meninas vivem com eles no Pará e, desde abril de 2024, constroem juntos uma nova história, feita de desafios, descobertas, afeto e muitas estreias.
A adoção não estava exatamente dentro do perfil inicialmente imaginado pelo casal. Ana Beatriz e Marcos haviam indicado no processo uma faixa etária de até sete anos, mas, durante as entrevistas, deixaram claro que estavam abertos à possibilidade de acolher uma criança maior.
Foi assim que conheceram as meninas, que estavam na chamada busca ativa, estratégia utilizada para encontrar famílias para crianças e adolescentes que, por características como idade, condição de saúde ou por fazerem parte de grupos de irmãos, enfrentam mais dificuldades para serem adotados. Como moravam em estados diferentes, a aproximação começou por chamadas de vídeo. Durante cerca de um mês, conversaram à distância até chegar o momento do primeiro encontro presencial. “Quando a gente entende que a adoção não é sobre o que eu quero, mas sobre o que eles precisam, a visão muda”, afirma Ana Beatriz.
Para ela, essa mudança de perspectiva foi fundamental. “Só que a gente sempre teve a consciência de que não tínhamos necessidade de um bebê. A gente queria os bebês que perdeu, então entendeu que o nosso desejo era ser pai e mãe, independente da idade”, conta. A adaptação trouxe desafios muitas vezes invisíveis para quem observa a adoção de fora. As meninas precisaram se adaptar a uma nova casa, um novo Estado, uma nova escola, novas pessoas, horários e regras.
Para os pais, também foi necessário aprender a compreender comportamentos, medos e necessidades que ainda não conheciam. Até o sono foi um desafio. Durante meses, elas acordavam diversas vezes durante a madrugada e tinham dificuldades para dormir. Havia medos a serem enfrentados e uma rotina a ser construída pouco a pouco. “Então a gente teve que ir passinho por passo, evoluindo junto com elas”, relata.
A experiência também mudou a compreensão do casal sobre o significado do amor na adoção. “Eu não iludo nenhuma mãe, nenhum pai que vem conversar comigo sobre isso. Você precisa permanecer, porque o amor na adoção nasce de fora para dentro. Você decide amar, depois você sente. Então você ama por decisão, depois você ama por sentimento”, explica Ana Beatriz.
As primeiras vezes também chegam depois dos sete.Um dos receios entre pretendentes à adoção tardia é imaginar que, por serem maiores, as crianças já teriam vivido os principais momentos da infância e não haveria espaço para que os novos pais participassem dessas descobertas. A história das duas irmãs mostra justamente o contrário. Ana Beatriz e Marcos viveram com elas a primeira ida à praia, o primeiro passeio a um parque aquático, a primeira reunião escolar, o primeiro Dia das Mães e o primeiro Dia dos Pais na escola.
Também estiveram presentes quando elas adoeceram, precisaram de colo, comemoraram aniversários e descobriram o que significa ter uma família acompanhando de perto suas conquistas e dificuldades.“Muitas pessoas têm medo porque não vivem as primeiras vezes, mas nós vivemos muitas primeiras vezes com elas”, afirma Ana Beatriz.
Para ela, outro mito precisa ser desconstruído: o de que crianças maiores e adolescentes não conseguem criar vínculos com uma nova família.“Eles acabam achando que crianças mais velhas não se vinculam, que elas não aprendem a amar, e pelo contrário, elas são as que mais querem amar alguém, elas só não sabem como fazer isso”, declara. A experiência do casal não elimina as dificuldades da adoção tardia, mas mostra que a idade não impede a criação de vínculos, a descoberta de novas experiências e a construção do pertencimento.
Um filho que chegou aos 10 anos
A história de Iria Ramirez Gomes, 68 anos, professora aposentada, mostra que a idade não impede a construção de uma família. Casada com Paulo Roberto Gomes, também aposentado, Iria sempre quis ter um filho.O encontro com Valmir Btista dos Santos, hoje com 24 anos, aconteceu depois de uma trajetória que começou quando ele tinha apenas 5 anos e chegou a um abrigo Ele permaneceu cerca de cinco anos acolhido e foi adotado pelo casal quando tinha 10 anos, há aproximadamente 14 anos.

A aproximação foi intermediada por uma das filhas do casal , que trabalhava na área de assistência social. Depois das orientações e das adaptações necessárias na casa, a Justiça concedeu a guarda.Valmor já tinha uma relação de amizade com o neto do casal, que vive com Iria e Paulo até hoje. A convivência ajudou a tornar a adaptação mais natural.
“Desde o primeiro contato, meu marido e eu ficamos encantados com sua educação e gentileza, o que nos motivou a oficializar a adoção.Mesmo trabalhando em dois períodos, o casal reservava o horário do almoço para conversar e fortalecer a convivência. “Embora meu marido e eu trabalhássemos em dois períodos, sempre reservávamos o horário do almoço para dialogar e fortalecer nossos vínculos. Ele rapidamente se tornou parte essencial de nossa família".
Iria também acompanhou os passos seguintes. Incentivou Valmir a continuar os estudos depois do ensino médio, mas ele escolheu outro caminho. Ela respeitou a decisão.“Eu mesma só concluí minha formação acadêmica após o nascimento do meu terceiro filho, o que me fez perceber que cada um tem seu próprio tempo.” Hoje, Valmir mora fora, mas mantém contato frequente com os pais. “Hoje, sinto que a decisão foi acertada. Ele é um homem trabalhador e atencioso; embora more fora, mantém um contato frequente, ligando ao menos uma vez por semana para saber como estamos. Para Iria, a experiência também mudou a forma de enxergar a adoção de crianças maiores. “Há muitas crianças e adolescentes que aguardam por um lar. Adotar uma criança maior é uma experiência gratificante".
Para aproximar pretendentes e crianças e adolescentes que enfrentam mais dificuldades para encontrar uma família, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJ/MS) desenvolveu o Programa Aproximando Vidas. Implementado em 28 de junho de 2022, por meio do Provimento-CSM nº 582, o programa foi idealizado pela Coordenadoria da Infância e da Juventude e é coordenado pela desembargadora Elizabete Anache.
A iniciativa utiliza uma plataforma on-line para apresentar a pessoas interessadas perfis de crianças e adolescentes aptos à adoção, especialmente aqueles que, por serem maiores, integrarem grupos de irmãos ou apresentarem outras características, podem ter mais dificuldade para encontrar uma família.A proposta é ampliar as possibilidades de encontro entre quem deseja adotar e quem aguarda uma oportunidade de viver em família.
O acesso à plataforma, porém, não significa adoção automática. Depois de manifestar interesse, o pretendente precisa passar pelo processo de habilitação previsto em lei, seguindo as etapas determinadas pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, com autorização judicial e acompanhamento técnico. Para quem pensa em adotar, o primeiro passo é procurar o Fórum da Comarca para uma avaliação prévia do Núcleo Psicossocial. O processo também envolve preparação para que os pretendentes compreendam as particularidades da parentalidade adotiva.
O tempo continua passando
No Brasil, 6.271 crianças e adolescentes estão disponíveis para adoção. Desse total, 4.146 ainda não têm pretendentes vinculados, enquanto 2.125 já despertaram o interesse de alguma família. Em Mato Grosso do Sul, os números mostram que o desafio não está apenas em encontrar pessoas dispostas a adotar, mas também em ampliar a disposição para conhecer crianças que não correspondem ao perfil tradicionalmente desejado.
Vale lembrar que adoção não é apenas escolher uma criança. É estar disposto a conhecer quem ela é, respeitar o que viveu e ajudá-la a construir um novo sentimento de pertencimento. Para as 138 crianças maiores que esperam em Mato Grosso do Sul, o tempo continua passando. Elas crescem, mudam, fazem planos, descobrem o mundo e seguem esperando. Talvez não procurem uma família perfeita. Talvez procurem alguém disposto a chegar, conhecer sua história, respeitar seu tempo e permanecer.Alguém que escolha ficar. E caminhar com elas.

Segundo dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento, nos últimos 8 anos, 1.061 cianças e adolescentes em Mato Grosso do Sul. Quase 60%(616), pardos, 22,6% (240), brancos, 5,9% (63) pretos; 3,4% amarelos, e 3,6,3% indígenas. O grupo mais majoritário de adotados, 57% ( 614) foi de crianças com até 4 anos de idade .
No grupo entre 6 e 16 anos, só 328 (30%) deixaram o acolhimento e ganharam uma família . Na faixa etária entre 12 e 16 anos , 62 foram adotados. Entre todos os que ganharam uma família, 512(48%) não têm irmão e 224 (21% ) dois irmãos.
Serviço
A Escola Judicial do Estado de Mato Grosso do Sul (Ejud-MS), em parceria com a Coordenadoria da Infância e da Juventude do TJMS, realizará, entre 1º de outubro e 30 de novembro, o curso “Preparação à Adoção: Nasce uma Família”. As inscrições estarão abertas de 16 a 27 de setembro, pelo site da Ejud-MS.
A formação será totalmente a distância, com oito turmas e participação de magistrados e servidores do Poder Judiciário de Mato Grosso do Sul como formadores e tutores. Durante os 60 dias de curso, divididos em sete módulos, os participantes terão acesso a videoaulas, materiais de leitura, atividades interativas, fóruns de discussão e questionários avaliativos. A proposta é promover uma reflexão sobre os aspectos emocionais, sociais e jurídicos envolvidos na construção de uma família.
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