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Curativo líquido pode acelerar a cicatrização de feridas em até 50%

A solução desenvolvida na Faculdade de Engenharia Química da Unicamp tem secagem rápida, é resistente à água e ambientalmente sustentável

20/09/2026 às 12h08
Por: Redação Fonte: Secom SP
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Empresa-filha da Universidade licenciou a tecnologia para acelerar desenvolvimento comercial do curativo. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo
Empresa-filha da Universidade licenciou a tecnologia para acelerar desenvolvimento comercial do curativo. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo

O uso de curativos tradicionais no tratamento de feridas pode causar desconforto aos pacientes e dificuldades que atrasam a recuperação. O banho e a substituição dos curativos costumam incomodar ou até arrancar o tecido novo em formação, por exemplo. Outra desvantagem é a limitação dos movimentos, pois os curativos geram atrito nos ferimentos localizados em áreas de articulação, como o cotovelo.

A fim de melhorar a qualidade de vida de pacientes em tratamento de feridas, pesquisadores da Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp desenvolveram uma tecnologia biocompatível, segura e não poluente. Na prática, trata-se de um curativo líquido aplicável diretamente na região lesionada. A tecnologia cria uma película protetora transparente sobre o ferimento em até 45 segundos, dispensando o uso de gaze, esparadrapo ou outros elementos sobre a ferida e acelerando a cicatrização natural do machucado. O tempo de recuperação do paciente pode diminuir em até 50%, segundo os pesquisadores.

A pesquisa foi coordenada pelo professor Rubens Maciel Filho, com a participação dos pesquisadores André Luiz Jardini Munhoz, Ana Flávia Pattaro e Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon. O curativo foi licenciado exclusivamente para a Dermbio Biotech, empresa spin-off acadêmica da Unicamp, que tem a participação dos próprios inventores, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento comercial da tecnologia. A empresa já havia licenciado uma outra tecnologia da Unicamp para produção de polímeros a partir do ácido lático. O licenciamento das tecnologias foi conduzido com o suporte estratégico da Agência de Inovação Inova Unicamp.

A Dermbio Biotech é uma empresa-filha da Unicamp, por ter sido fundada por um docente, dois pesquisadores e uma egressa da Universidade, e também é considerada uma spin-off acadêmica por ter sido criada a partir do resultado de uma pesquisa produzida na Unicamp e que recebeu o Prêmio Inventores Unicamp em 2024.

Limitações dos tratamentos tradicionais

Os métodos convencionais de proteção e de cobertura de ferimentos (gazes, ataduras, fitas adesivas e outros) podem causar desconforto ao paciente durante a substituição ou remoção do curativo, que frequentemente arranca o tecido novo em formação, atrasando a cura. O banho pode ser mais um obstáculo que posterga a recuperação, com esfregação acidental e aumento da umidade na área machucada. Outro problema é o risco de infecções, uma vez que a manipulação de instrumentos não estéreis e a retenção de umidade favorecem a proliferação de bactérias no local ferido.

Para Maciel Filho, o diferencial do curativo líquido está na eliminação completa do contato físico com a região afetada. “O ferimento afeta a qualidade de vida e a pessoa sacrifica muitas atividades que precisam ser realizadas no dia a dia. O grande atrativo da tecnologia em que a Dermbio se baseou é que ela pode levar a um novo método de cobertura da ferida sem haver nenhum toque nela, sem você colocar uma gaze ou atadura. Estamos formando um filme inteligente, no sentido de que ele interage muito bem com a pele e cria uma condição de barreira contra agentes externos que causam infecção, servindo como substrato para acelerar a cicatrização da ferida”, aprofunda o professor e pesquisador.

A tecnologia desenvolvida na FEQ Unicamp utiliza um polímero reconhecido por sua excelência em biocompatibilidade com o corpo humano. No entanto, segundo o coordenador da pesquisa, um desafio histórico enfrentado por cientistas e pelas indústrias estava no processamento e na solubilização desse material. Os métodos populares exigiam o uso de solventes tóxicos para transformar o polímero em líquido, o que inviabilizava a aplicação sobre a pele humana, afirma o inventor.

A invenção superou essa barreira ao formular um sistema exclusivo de solventes de origem renovável, ambientalmente sustentáveis e totalmente atóxicos para o ser humano. Ao ser aplicado sobre a ferida, o líquido seca em até 45 segundos e atua como uma estrutura 3D servindo como suporte para que as células se regenerem, explica Maciel Filho. Durante o processo, o organismo metaboliza naturalmente o polímero, o que torna desnecessária a remoção manual do curativo, ou seja, o organismo absorve o curativo ao mesmo tempo em que cicatriza o ferimento.

“O que existe hoje na pesquisa acadêmica e em empresas internacionais é o uso de solventes tóxicos. A nossa inovação e o nosso grande diferencial em escala mundial foi encontrar um sistema de solventes que solubiliza o polímero sem ser tóxico para o ser humano, permitindo a aplicação direta sobre a pele lesada. Então você não tem que cortar ou ajustar o tamanho dessa membrana: ela vai se adaptar conforme a necessidade de cada paciente”, comenta Ana Flávia Pattaro, doutora em Engenharia Química pela Unicamp.

Formas de aplicação do curativo líquido

Outra característica positiva da invenção apontada por Pattaro é a sua eficácia no tratamento de ferimentos em regiões de dobras e articulações, como cotovelos e joelhos. A tecnologia é capaz de preservar a mobilidade do paciente sem que o curativo descole ou se rompa. Além disso, a película formada é impermeável à água externa, então o paciente pode tomar banho sem se preocupar em cobrir a região, e é transparente, permitindo o acompanhamento da cicatrização do machucado sem precisar retirar a proteção.

O fato de não precisar cortar e não precisar trocar também traz uma potencial diminuição na contaminação cruzada. Porque, se você tem uma manta ou gaze e pega uma tesoura que não está esterilizada para cortar, você corre o risco de levar contaminação de uma região para outra. E o fato de você não precisar trocar e de esse material ser absorvido pelo corpo faz com que você também não gere resíduos biológicos”, completa a doutora em Engenharia Química pela Unicamp Maria Ingrid Rocha Barbosa Schiavon.

Expansão para a saúde animal

Os pesquisadores da FEQ também identificaram o potencial de uso da tecnologia no tratamento de ferimentos em animais, visto que os métodos tradicionais costumam falhar porque eles arrancam as ataduras ou lambem as feridas. O novo curativo líquido, portanto, pode resolver esse problema com sua forte aderência à pele e resistência à água. A forma de aplicação em animais é a mesma planejada para seres humanos.

A tecnologia é totalmente escalável. Nós já realizamos com sucesso os testes de escalonamento do processo saindo da bancada do laboratório. Desenvolvemos equipamentos e processos próprios que não exigem altos investimentos, o que nos garante alta capacidade produtiva, agilidade e custo competitivo no mercado.”, resume Rubens Filho.

Apoio à inovação

O desenvolvimento da tecnologia contou com o financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Paralelamente, todo o suporte estratégico para o licenciamento exclusivo foi fornecido pela Inova Unicamp.

Presente, futuro e versatilidade

A tecnologia já passou por ensaios pré-clínicos in vivo, realizados em colaboração com a Faculdade de Medicina de Jundiaí (FMJ). Nesses estudos, o curativo demonstrou a capacidade de reduzir aproximadamente pela metade o tempo de cicatrização em comparação aos curativos tradicionais,relata Pattaro.

Atualmente, a Dermbio Biotech concentra esforços no avanço das etapas regulatórias exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e na estruturação comercial, para que o curativo possa ser disponibilizado no mercado.

O futuro da tecnologia vai além do uso em ferimentos. O grupo de pesquisadores revelou que a invenção também pode ser usada na formulação de dermocosméticos para antienvelhecimento, no recobrimento de implantes e próteses e como um dispositivo para a liberação controlada de antibióticos e anti-inflamatórios.

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